Meu querido vagabundo

Carlito Azevedo

Uma vez me ligou, espantada, porque descobriu que nos primeiros anos do século 20 as exposições de Picasso e Matisse eram proibidas para menores.

Outra vez me ligou, sempre de madrugada os seus telefonemas, e sempre longuíssimos, graças a deus, para dizer que quando Marx (então com 24 anos) assumiu a chefia de redação da Gazeta Renana, a censura era tal que não se podia anunciar a publicação de uma tradução alemã da Divina Comédia, de Dante.

Melômana, sempre que eu implicava com seus poemas rimados e metrificados, repetia o que disse Schoenberg (“e olha que ele não era exatamente um anti-vanguardista”) no fim da vida: “Ainda há muito o que dizer em dó menor…”.

*

De todo modo, detestava ser chamada de poeta, ou considerada poeta, era atriz, acima de tudo atriz, absolutamente atriz, sobre todas as coisas, inevitavelmente; e já estava bastante doente quando nos vimos pela última vez.

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A última vez…

Queria passear pelo Centro do Rio (“como fazíamos quase todos os dias na época da faculdade, lembra?”). Estava compreensivelmente emotiva, e como não visitava o lugar havia décadas, as décadas que morou fora do Brasil, tinha medo de “sucumbir à visão do desastre” se fosse sozinha.

Coitado de mim se imaginava que poderia, uma vez na vida, servir de guia para a minha linda, querida e inquieta ex-companheira.

No máximo poderia proferir algumas banalidades como “Veja, a Leiteria Silvestre, sua preferida, fechou, mas a Leiteria Mineira resiste!”

Ou que o sebo Brasileira, no segundo andar do Edifício Central, onde certa vez tivemos a epifania de ver a sempre medíocre estante de literatura francesa (sempre repleta dos Gautier, dos Vigny, dos Géraldy) completamente tomada por centenas de livrinhos das Éditions de Minuit, nosso maior fetiche de juventude, nossa única bibliomania, amor jamais abalado por qualquer outra edição, mesmo os belíssimos livros da José Corti que enchiam as estantes da Livraria Padrão… que, enfim, o sebo Brasileira fechou mas que logo ali em frente, do outro lado da rua, o sebo Berinjela se tornou o mais legítimo herdeiro dos grandes sebos cariocas.

Na verdade, eu já intuía que, como sempre, ela é que acabaria me guiando por algum passeio imaginário, feito dos roteiros sempre-sempre imprevisíveis de seu pensamento claro e contundente, de sua memória mítica, que nos assombrava a todos os amigos.

Surgem de imediato na mente os versos extraordinários de Caetano Veloso:

“Nosso amor resplandecia sobre as águas que se movem.
Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem.”

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Não deu outra

 

Não deu outra. Foi sairmos do café do Centro Cultural da Justiça, na Rio Branco, ponto de encontro, atravessarmos os trilhos do VLT, cruzarmos a Cinelândia (eu de olho nos prédios da Biblioteca Nacional, do Teatro Municipal, do Museu, ela de olho em cada pessoa que cruzava nossa frente, em cada um sentado, descendo as escadas do metrô, esperando ônibus…) e já me tomou pela mão, como sempre fazia quando tinha que me explicar, em nossos passeios, algo que eu não havia compreendido bem em tal ensaio de Barthes, em tal conto da Clarice, em tal poema de Rimbaud, em tal romance de Stendhal, para citar apenas quatro de nossos eternos preferidos do período estudantil. Ah, e Ionesco também.

Teatro_Municipal_-_Rio_de_Janeiro_commonswikimedia

Teatro Municipal do Rio de Janeiro

– Está vendo as pessoas, Car? Está olhando para elas? Brecht escreveu um belo poema em que sugere aos atores que atuam em grandes teatros, sob os sóis artificiais dos holofotes, que observem o teatro cotidiano das ruas, múltiplo, obscuro, vivo e nutrido de vida social. Ele fala na inquilina que imita para a vizinha o seu proprietário, como ele tenta, com palavras ocas e verve balofa, desviar o assunto do cano de água que estourou. Ele fala do sujeito que testemunhou um acidente de trânsito e agora, para a polícia e para o pequeno ajuntamento que se formou ao seu redor, está imitando o que fez o motorista imprudente, agora imita o que fez o motorista abalroado, e já agora imita o que deveria ter feito o primeiro e o que se viu impossibilitado de fazer o segundo. Brecht escreve que, como a vizinha e a testemunha, o ator não deveria “querer ser” o motorista ou o proprietário em sua atuação, mas sim alguém que quer impedir uma injustiça, impedir que o justo pague pelo injusto, que uma vítima não seja ressarcida pelo infrator.

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LINS9960 - RJ - 11/05/2015 - CASA/CAVE - CIDADES OE - A tradicional casa de lanches do centro carioca Casa Cavé (FOTO), com 155 anos, volta na quarta-feira ao endereço original, na esquina das ruas Uruguaiana e Sete de Setembro. Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Casa Cavé, Rio de Janeiro

Horas depois, assuntos outros depois, já sentados na Casa Cavé, rabiscou no guardanapo uns versos de Brecht. Vi que queria retomar o assunto, que eu talvez tenha cortado cedo demais com alguma pergunta sobre sua vida ou observação qualquer:

“Ator, deixe o camponês ser camponês
e permaneça ator.”

Digo que não conheço esses versos.

– É de um outro poema. Não daquele de que falava antes. Mas no fundo são o mesmo poema. Neste aí, Brecht diz que alguns atores podem achar que o ápice da arte de representar é, ao fazer o papel de um camponês, sentir-se, pelo tempo da representação, de fato um camponês, e fazer com que cada um dos espectadores se sinta um camponês, como num transe. Mas para Brecht esse é o fracasso da representação. Porque o ator não é camponês, e a platéia não é formada por camponeses, não podem sentir como camponeses. Que a boa representação seria aquela que mostrasse ao ator COMO ele NÃO É um camponês, e para cada um dos espectadores COMO ele também NÃO É um camponês. O que isso implica. É como o caso da inquilina e da testemunha do acidente de trânsito: a imitação que fazem é uma atuação séria porque com ela tentam denunciar um logro e evitar uma injustiça, e não porque mediunicamente se transformaram no outro.”

Se ela soubesse, além do tanto de coisa que sabe, ler pensamentos, leria em minha testa qualquer coisa como “E numa hora difícil como esta para o país, vamos perder uma lutadora assim, uma cabeça assim, um coração assim… isso é uma injustiça.”

Poucos meses depois, a notícia.
Aqueles telefonemas de madrugada nunca mais. Nunca dizia “alô”. Era sempre “Meu querido vagabundo…”. Nas cartas ou mensagens de e-mail que eu mandava, ela era sempre a “Querida R.”

Nunca me perguntou nada sobre minha vida. O que eu fazia, onde estava morando, se namorava. Só soube que ela teve duas filhas pelo obituário no jornal. Éramos assim.

Preparando a primeira aula da oficina de poesia que começa agora em fevereiro, é nela que penso ao incluir o poema de Rimbaud que termina assim:

“Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo,
a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios,
o fim da superstição…

O canto dos céus e a marcha dos povos!
Escravos, não amaldiçoemos a vida.”

*

Ela certamente diria que não poderíamos amaldiçoar mesmo nossas vidas. A dela foi, inteira, o teatro. A minha, inteira, a poesia. Até agora.

No fim do passeio, pegamos um táxi para deixá-la em casa. Por toda a extensão do Aterro do Flamengo ficamos de mãos dadas, no banco de trás. Quase em silêncio. Não fosse em um momento ressurgir a melômana que, diante dos traços de Burle Marx, me perguntou:

– Você sabia que o irmão de Burle Marx, Walter Burle Marx, era um bem razoável compositor erudito. Busque o seu concerto para violoncelo.

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Dentro do táxi, mãos dadas.


Carlito Azevedo (Rio de Janeiro 1961) é poeta, tradutor e editor. A partir de agora também é cronista mensal da Boto cor de Rosa.

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Créditos de fotos:

1. Parque do Flamengo: Croqui Fernando Tábora. Vitruvius.com.br.
2. Teatro Municipal: Commons Wikimedia.
3. Foto da Casa Cave: Fabio Motta/Estadão. Disponível aqui.