Eu sou Sergio Caetano

Jorge Ialanji Filholini

O passado aparece vestido de pai. Parado na porta de entrada da minha antiga casa. A casa em que cresci. A tinta, terra cota, brilhava. Haviam pintado naquela cor quando eu tinha sete anos. Se eu passasse o dedo molharia a mão. As pernas não deixavam os músculos trabalharem. Parado diante da porta. Apertava a campainha. A saudade tem cheiro de naftalina. Não é à toa que o armário nunca está aberto. Sentia um aperto no pescoço. De quebrar a traqueia. Na sala, a mesa cheia de copos com vinho. Gosto de sangue. Na vitrola o disco do Gonzagão. “Saudade, o meu remédio é cantar. Saudade…”. O preferido do meu pai. Palmas e velas acesas na cozinha. Comemoravam o centenário do velho. Vi pelo formato do numeral das velas. Não sorria. Encarava o bolo como alguém que observa a bosta descer pela descarga. Meu pai, um deslocado de seu dia. Nem quis apagar as chamas. Levantou-se e caminhou em direção à porta do fundo da residência. Fui atrás dele. Encontrei-o encostado na parede. Preparava o fumo dentro do cachimbo. Olhava para baixo. Dedos sujos. Sem me encarar começou a contar uma piada antiga. Um avião caiu no meio do deserto. Sobreviveram três amigos. Caminharam por três dias naquela imensidão arenosa. Uma lâmpada mágica surgiu na duna. Os três a esfregaram e saiu o gênio avisando que cada um teria um desejo realizado. Apenas um desejo, amigos. O primeiro pediu para cair fora daquele inferno, queria acordar numa piscina no HILTON de Acapulco. Pá! Sumiu. O segundo pediu para acordar no balanço da rede na beira do rio. Puff! O terceiro, com um olhar desesperador, demorou para fazer o seu pedido. Lembre-se, era o último. Chorou. Respirou e convicto falou: “traga-os de volta”’. Os amigos são assim. Você não pode estar numa boa que eles vão querer te puxar para baixo. Amizade é o falso dente branco que quebra na primeira mordida da maçã. Aniversário foi criado para a felicidade dos convidados. Nunca seja covarde. O importante é você ter o seu nome reconhecido. A idade que se foda. Depois só enxergava a sua boca se mexer. Não escutava. Meu corpo ficou mais leve. Comecei a levitar e subir e subir e subir. O quintal diminuindo. Meu pai pela primeira vez menor. Apontava o seu antigo 38 para mim. Acordei.

Pelo menos seu velho vai viver até os cem.

Ele morreu há vinte anos.

Use a carta do baralho. De preferência a de plástico. Aprendi isso com Sopranos. Não gruda como o cartão de crédito e se desgastar é só jogar fora. Pronto. Dá para quatro teques. Na tela do celular fica melhor. Tira do wifi para não vibrar e espalhar todo o pó.

Vinte conto cada pino. A crise afetou até as bocas. Filho da puta não quis diminuir. Já é humilhação descer na maloca e procurar esses porras zanzando de bike. Mas abaixar o preço não. Preço tabelado da banca. Quem depois se passa de zé droguinha sou eu. Maria já avisou que vai meter o fora se eu chegar com a napa nevando. Carolina nem me responde o whats. Moralistas de merda. Percebeu no nosso corre quantas igrejas evangélicas passamos? Foram cinco! Cinco! E andamos apenas quatro quarteirões. Essas porras vão dominar o mundo. Começam no bairro, depois na cidade, estado e a presidência. E gritam. Berram. Deus cura tudo. Menos a surdez.

Foda-se! A coca tá no fim. Vai querer comprar mais?

Não, já tô de boa. Vou sair fora.

Vai pé dois?

Nem. Vou pegar um TX.

Cuidado. Ficará fritando a noite toda.

Pode deixar. O bom que faço uma maratona na Netflix.

Ele não me reconheceu. Olhou por dois segundos no meu rosto quando entrei no carro. Não deve se recordar. A memória nem ativou um espaço em que passamos juntos. Ou ele sabe quem eu sou e está humilhado de se apresentar por ser hoje um taxista.

Vai pra onde, meu caro?

“Meu caro” é o seu cu. Fala o meu nome. Eu sei que você me conhece. Tá com vergonha? Escroto. Pensamentos acelerados. Eu me recordo. Tomar socos no banheiro do pátio no intervalo das aulas. Engolir papel higiênico sujo no fundo da lixeira de alguma cabine menor que este Celta. Lamber a beirada molhada de urina do vaso sanitário. Puxar meu braço para trás. Ameaçar quebrá-lo se eu não chupasse o pau do Josemar. Covarde. O castigo pior estava por vir. Hoje ele é taxista e não me encara. Apaga as cenas protagonizadas comigo. Não existe borrão que manche o passado de quem recebeu o tapa.

Me leva até a praça XV de Novembro.

Vou fazer esse filho da puta chorar. A última viagem. Vou cortar teu corpo inteiro. Quanto tempo à espera. Minha infância com as cuecas molhadas de mijo por causa da imagem de seu rosto vindo me dar o soco. Psicólogos pagos. O choro escondido da minha mãe quando cortava as unhas no banheiro do quartinho do fundo. Meu pai me humilhando nas ceias de natal. Bichinha. Covarde. O riso familiar congelado por mais de trinta anos.

Gosta dessas merdas de sertanejo? Só toca isso na rádio. Quer trocar de estação?

A testa suada. Adrenalina da coca ainda no talo da mente. Ele não faz ideia de quem eu sou. O suor desce frio igual filete de navalha na pele. A oportunidade do acerto de contas. É só saber pegá-la. O celular com a bateria no fim.

Conectar em alguma tomada. As horas piscavam. Três e trinta e cinco. Ele trabalha a madrugada inteira? Deve ter mais de um emprego. Contas a pagar que dão volta neste carango. O ponto do táxi não é tão barato assim. Já está dando mais de cinquenta pila esta viagem. Se deu bem. Vai conseguir comprar a cesta da semana. Será que já tem filho? Ou filhos? Separado? Engordou. Barba grossa. Preguiça da aparência. O homem macho em decadência. Geração ultrapassada. Eu gosto. Quero vê-lo em desgraça. Em miúdos. Devendo pro banco. Minha felicidade é observá-lo dentro deste minúsculo Celta. Escritório ambulante sem rumo. Jogarei a grana da corrida no chão para ele engatinhar e pegar. Um animal. Bicho remexendo o lixo. Minha vitória. Eu quero mais. Quero que ele saiba quem sou eu. Se desespere. Peça desculpa.

Sergio Caetano tinha uma raiva. Acordava todos os dias meia hora antes do alarme do celular. Puto de não ter aproveitado aqueles minutos para dormir. Babar no travesseiro. Ou ficar com a cara toda amassada na parede gelada que o ajudava a não passar calor na madrugada. Nada. Todo santo dia meia hora antes. Pensou ser um sinal. Aviso divino. Ou pura sacanagem do destino. Sergio Caetano – Sergio é uma homenagem ao avô e Caetano para dar continuidade ao talento do cantor – já levantava nervoso. Repreendia o bom dia de sua mãe e nem olhava na cara do pai. Qualquer desavença poderia desencadear a briga. E a raiva aumentava. O ódio de acordar cedo demais. Sergio Caetano não aguentou. Pegou a faca na terceira gaveta do armário da cozinha e desceu trinta e oito braços nos pais. Cumpriu quase vinte anos de cana. Saiu faz alguns dias. Ainda se adaptando com a vida daqui de fora. Até hoje culpa aquela meia hora pelas mortes. Vai saber. Havia algo além do relógio. Dizem que agora ele dorme como uma pedra.

Amigo teu? Que crueldade.

Tempos tenebrosos. Pode parar ali.

Mas não tem casa. É um baldio.

Encoste.

A corrida terminada. Morderia a jugular dele. Jorraria no vidro. Molharia o estofado fedido. Podia pegar o extintor e amassar a sua cara. Irreversível. Não tenho coragem. Meu pai tinha razão. Meu maior monstro na minha frente à espera do dinheiro. E não consigo fazer nada.

Na grana ou no cartão?

Eu não sei socar uma pessoa. Nunca briguei. Só apanhei. Não sei quando estou no controle. Ofensivo. A covardia é o escudo dos inúteis. A vergonha dos homens.

Saí pela calçada que não sei de onde é e para aonde vai. Estou em um bairro sem mapa. Diante de um terreno. Ele agradece levantando a mão de dentro do carro. Não sai do carro para nada. Essa bunda quadrada. Acho que usa fralda. Caga dentro do carro. Se for ao banheiro perde uma corrida. Perde o dinheiro. Ganha um negativo no saldo do banco.

O Celta parou na esquina. Farol vermelho. O minuto decisivo. Não se joga fora o pão que o destino esquentou.

Hei! Hei! Hei!

Opa. Esqueceu algo?

Eu sou Sergio Caetano.

O tijolo fica mais pesado com pedaços do rosto dele pendurado. Escorre sangue no braço. Ali tem um posto. Só lavar. Não irá reclamar do dinheiro que peguei. Quem é o covarde agora? Eu sou Sergio Caetano.

Senhor? Na grana ou no cartão?


Jorge Ialanji Filholini nasceu na cidade de São Paulo, em 1988, mas reside há mais de 20 anos em São Carlos, interior do estado. Editor do site cultural “Livre Opinião – Ideias em Debate” (www.livreopiniao. com). É um dos curadores do Festival Gaveta Livre, evento literário e teatral realizado em São Carlos. Fez parte, ao lado do escritor Marcelino Freire, do projeto Quebras (www.quebras.com.br), como produtor e assistente de multimídia. Participou da antologia, lançada em novembro de 2015, com textos e fotografias que desenvolveu durante a sua viagem pelo projeto. Lançou, em 2016, o livro de contos “Somos mais limpos pela manhã”, pelo selo Demônio Negro.

O livro “Somos mais limpos pela manhã” de Jorge Ialanji Filholini está disponível na livraria Boto-cor-de-rosa.

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