Dia de ano novo

O dia parece ter sido feito às pressas
como um presente para mendigos agradecidos
sendo melhor do que jamais foi
mas soam sinos
em cidades que eu nunca visitei
e meu nome está estampado sobre portas
que nunca vi
Enquanto extraía um osso
ou o que quer que seja suave ou fértil
do centro dos dias indiferentes
já esqueci
o toque do sol
cortando manhãs descomprometidas
A noite está cheia de mensagens
que não consigo ler
Estou muito ocupada esquecendo
do ar como penugem em minha língua
e essas lágrimas
que não vem da tristeza
mas do cisco em um, às vezes, vento

A chuva cai como betume em minha pele
meu filho pega o coração da galinha no jantar
perguntando
esta coisa ama?
Ágeis dedos sem malícia, de fantasmas,
depenam meus sonhos
escondendo seja lá o que for de tristeza
que me alentaria

Ajo com deliberação
e com medo
de nada.

Audre Lorde

tradução de Milena Britto e Sarah Rebecca Kersley

 

 


Audre Lorde (1934-1992) foi uma escritora caribenha-americana. Leia mais de Audre Lorde na Poetry Foundation  e na Revista modo de usar & co.

Sobre Mergulhos da boto: Nossos mergulhos por águas, terras, espaços siderais, montanhas, páginas, vozes e imagens. leia mais aqui.

fonte da foto: www.thefeministwire.com