O amor entre uma crise de epilepsia e um walkman

Milena Britto – Professora da Ufba

O romance “Controle”, de Natalia Borges Polesso, poderia ser um romance que investiga os sentimentos ambíguos de adolescentes em transição e já seria uma bela obra. Mas não é apenas isso. A autora magistralmente aborda essa fase da nossa existência, por si só capaz de causar uma ebulição na vida de todos os envolvidos, só que a partir do olhar de Maria Fernanda, uma adolescente lésbica que também é epilética. Natalia usa com maestria a emoção adolescente como matéria prima de sua obra, discutindo justamente as marcas emocionalmente expostas de uma menina ao se deparar em plena adolescência com a experiência drástica da epilepsia.

Essa condição de saúde da personagem é desenvolvida de maneira profunda e delicada, com a narrativa em primeira pessoa transferindo para o leitor a surpresa angustiadora da descoberta da epilepsia ao mesmo tempo em que mostra, contraditoriamente, a montanha russa do adolescer como o ponto aguçado de normalidade, ou melhor dizendo, de igualdade entre as personagens adolescentes retratadas, afinal, qual adolescente não passa por toda sorte de crises, angústias, aventuras e descobertas?

A complexidade da obra se revela em vários níveis, da temática à linguagem. Movendo-se entre a fase de vida, o preconceito em torno da epilepsia e a descoberta da sexualidade, a autora traz uma linguagem que se revela ora como o lugar de refúgio, como mostram os diálogos interiores que a narradora oferece através de suas lembranças e impressões do que foi vivido, ora como o lugar da solidão ensimesmada, com a mistura de letras do New Order aos fluxos, frases e diálogos da narradora.

Entretanto é no questionamento sobre a responsabilidade e o impacto da doença na vida dos amigos e entes amados que reside toda a carga de tensão da obra. A indagação ali não é simples, não se trata de ir a fundo para ver até onde vai o apoio, a compreensão, a responsabilidade da família e dos amigos, mas até que ponto temos o direito de cobrar e de responsabilizar os outros, ou até que ponto não nos valemos do lugar de vítimas e deixamos a vida nos paralisar.

Tudo no romance é construído de modo a revelar a intensidade da experiência e solidão da personagem: “Ninguém perguntava como eu me sentia. Eu não sabia responder com precisão. E as pessoas acreditavam na precisão dos sentimentos. Estou feliz. Estou triste. O que aquelas palavras queriam dizer, afinal? Estou com três quilos de areia molhada no estômago”. O que o leitor passa a viver com Maria Fernanda é uma espécie de mergulho na intimidade e na crueza dos sentimentos de um ser humano tentando sobreviver à adolescência. Nossa própria memória dessa época da vida vem à tona, principalmente pela riqueza de ambientação e elementos oferecidos pela autora. O romance é rico em referências dos anos noventa, mas qualquer um vai achar algo semelhante ao seu próprio tempo.

Natalia Polesso também provoca, de forma positiva, uma certa confusão no leitor, deixando a narradora se mostrar consciente e madura sobre a sua condição de epilética ao mesmo tempo em que a vemos se afundar nela. É nesse âmbito que a sexualidade é acionada como um ponto de redenção, a chave da liberdade, de pleno conhecimento de si, pois é entrando na fase adulta que a mais densa ruptura se dá: a sexualidade surge de forma plena, com Maria Fernanda libertando-se de sua prisão a partir da necessidade de viver relações físicas, afetivas e amorosas. Ela assume o controle da própria vida do mesmo jeito que assume a sua felicidade em se abrir para o desejo, para o novo, para o presente. A epilepsia não só vem primeiro no embate de Maria Fernanda com o mundo, mas interrompe o caminho natural para a descoberta do primeiro amor que esteve ali todo o tempo.

Polesso dá um ritmo à narrativa que não há como não ser associado ao ciclo das crises epiléticas sofridas por Maria Fernanda.

Em “Controle”, Natalia Borges Polesso mostra, principalmente, o impacto das relações de amizade e das relações sexuais e amorosas na formação dos indivíduos. Todo adolescente é fisgado pelo desencontro entre o “eu” e o “mundo”, então, a epilepsia serve, na obra, também como um dispositivo para intensificar esse desequilíbrio e nos levar a mergulhar na solidão esmagadora que se sente nesta fase de vida. A autora usa a ficção para reencenar as suas investigações sobre as relações humanas e o lugar do sujeito no mundo. A sexualidade, como em todas as suas obras, é algo natural, uma outra forma de amar. A escolha pelo corpo feminino lésbico para contar essa história é, portanto, ao mesmo tempo natural e político, uma chamada para o mundo sempre em construção, em transformação.

“Controle” é uma obra delicada, sincera e sagaz que mostra o quanto precisamos de nossas romancistas dentro desse panorama de mudanças radicais que assolam o momento atual.

 

Controle / Natalia Borges Polesso.  Companhia das letras, 2019. 176 páginas.

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Milena Britto é professora da Ufba.